A vida oculta dos nus

Parte da pesquisa que venho desenvolvendo em desenho, mas que em alguns momentos se funde com o projeto "Inutilitários" e os livros de artista “Desenho sem colorir”, na vida oculta dos nus, os gestos são cíclicos e obsessivos, a repetição é uma ferramenta nos protege do trauma, para poder repeti-lo no lugar seguro da arte, evitando assim adoecer física e/ou socialmente.

 

Nesta ocasião os desenhos foram organizados em pequenos ciclos, compondo pequenas narrativas possíveis.

Exposição "A vida oculta dos nus"

Galeria Poente

papel Canson 90gr 30 x 30 cm
2016-2022

Na psicanálise, o inconsciente consiste nos materiais reprimidos: “O inconsciente não é perder a memória; é não se lembrar do que se sabe” (LACAN, 2001). Para Sigmund Freud, os afetos não são reprimidos, mas somente deslocados. Os desejos, imagens e outros elementos do inconsciente normalmente encontram uma expressão verbal. Sendo estruturado em função do simbólico, o inconsciente é, em seu fundo, tramado, desenhado, encadeado, tecido de linguagem.

A partir da linguagem artística Célia Barros dá forma à sua relação entre o simbólico e o imaginário. Diante do indizível, buraco do trauma, a artista se perguntou qual seria o caminho e percebeu, assim como Lygia Clark em “Baba Antropofágica”, que era preciso puxar o fio. Afinal, o buraco não tem fundo mas tem borda na qual uma superfície pode ser tecida ou desenhada, não para tamponar a dor, mas criar um espaço/tempo/superfície possível para a elaboração do vivido. 

Foi fazendo um trabalho para bordear o buraco da angústia que Célia produziu a série de desenhos “Qual é o caminho? ”. A artista se permitiu construir um processo de auto cura no qual o traço, a linha, conduzia o ritmo e a temporalidade do movimento de devir outra. Os desenhos de Célia Barros conferem relevo a coragem de quem se permite a reinvenção constante de seus próprios paradigmas, assumindo como sede e destino destes acontecimentos o corpo de suas obras. 

“Deixe escorrer” é o que nos propõe na obra “Os Incontinentes”, na qual co(r)pos nos conectam com nosso DentroFora. A artista transforma a ação banal de levar um copo d’água à boca em uma imensa aventura. Enquanto percebemos que o objeto foi criado para não conter, nosso olhar é direcionado para a intimidade do interior de um corpo outro. Algo do estranho e do familiar se presentificam na experiência, transformando o ordinário em sublime. 

Por fim, as palavras possíveis se apresentam através dos livros/cadernos de caráter confessional. O texto não nos limita a uma narrativa fechada, nos convida ao desnude e ao transbordamento poético do que em nós permanece oculto.  Desta forma, Célia Barros se transforma em mediadora poética das realidades e das coisas do mundo, entendendo a poesia como alicerce de todo o ato criativo/curativo. 

 

Elisa Castro